O Corpo foi encontrado poucos minutos passados da meia noite. Uma barata, não identificada, em meio ao gramado da quadra. A primeira formiga que por ali chegou não soube apurar a causa mortis, mesmo após verificar em detalhes o corpo e observar a existência de um ferimento corto - contuso no ventre da vítima. Apesar da prudência e dos cuidados investigativos naturalmente exigidos pela gravidade do caso, a formiga não se interessou por aguardar a policia técnica e, com vistas a evitar o formigueiro concorrente, chamou suas amigas para iniciarem junto, o trabalho de remoção. Em minutos, um silencioso cortejo fúnebre cruzava o gramado. Equilibrado no alto de cuidadosas operárias, o corpo era levado ao sepulcro final na entrada do formigueiro. Mas, anunciada com breves gotas, uma chuva torrencial lavou o caminho longo e tortuoso das coveiras do jardim. E onde era apenas grama, surgiram rios caudalosos e fendas abismais. O complexo trabalho de engenharia necessário para vencer os obstáculos passou a ser observado ao longe por um interessado roedor, cuja gula só foi afastada em virtude do gato errante, morador perene da região e chefe da quadra. No entanto, o primeiro raio de sol despertou um bem-te-vi de seu recluso galho no primeiro andar da mangueira. Os olhos treinados avistaram a trilha de formigas carpideiras. E, antes que elas chegassem à proteção de seus escuros túneis, com uma revoada, dois passinhos e uma bicada, o corpo-troféu, voou carregado pelos ares, esvaziando todos os esforços da madrugada empenhado pelo forte corpo operário do formigueiro. Durante o dia, as empregadas, as estudantes uniformizadas, as estudantes não uniformizadas, os engravatados das autarquias, o zelador, os maconheiros vespertinos, a equipe de catadores de grama, o pessoal da capoeira, o entregador de móveis atrasados, ninguém percebeu o movimento insignificante do gramado, todos afogados em seus pensamentos de grandeza muito maiores que o universo inteiro.
edgarlook






















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